quinta-feira, 25 de junho de 2009

A MEMÓRIA E SUAS FALHAS: TRANSITORIEDADE




A transitoriedade é o esquecimento que acontece com o passar do tempo. Ela age de forma silenciosa, mas contínua: o passado desaparece inevitavelmente com a ocorrência de novas experiências.


O filósofo Hermann Ebbinghaus ao entrar em contato com o livro de autoria do também filósofo e cientista alemão Gustav Fechener, que tratava de métodos experimentais para o estudo da percepção sensorial, expressou que a memória, assim como a percepção sensorial, poderia ser estudada com o uso de métodos científicos. Ele, então, produziu as primeiras provas experimentais da transitoriedade ao sondar sua própria memória em busca de milhares de cadeias de letras sem sentido (chamadas de “sílabas absurdas” pelos psicólogos) em que havia se esforçado para aprender e reaprender. Disso resultou a sua descoberta de que a maior parte do esquecimento ocorre em períodos recentes ao acontecimento e que depois vai diminuindo. Esta descoberta mais tarde foi comprovada em inúmeras experiências de laboratório.


Em pontos relativamente iniciais da curva do esquecimento – minutos, horas, dias, às vezes mais tempo -, a memória guarda recordações relativamente detalhadas, permitindo que resgatemos o passado com uma precisão razoável, senão perfeita. Mas, com o passar do tempo, os detalhes vão se apagando e multiplicam-se as oportunidades de interferência – geradas por experiências posteriores parecidas – para obscurecer as nossas recordações. É aí então que nos apoiamos cada vez mais no que recordamos da essência, da parte principal do acontecimento, e tentamos reconstruir os detalhes por dedução e até mesmo adivinhação. A transitoriedade envolve uma troca gradual de reprodução de detalhes e recordações específicas pela reconstrução e descrição mais geral de um evento.


Quando o objeto perceptual é agregado com alto valor de atenção, melhor será o potencial de registro do objeto pela memória. Duas regiões do cérebro se mostram com maior atividade quando a percepção está associada com a atenção. Essas duas áreas ficam na parte interna do lobo temporal e parte inferior do lobo frontal esquerdo. Portanto, quanto mais se analisa um objeto durante a codificação menos transitórias são as lembranças. Também, a memorização de informações melhora quando as pessoas conseguem criar frases ou histórias que possibilitem a associação de fatos já conhecidos àquilo que precisa ser lembrado.


A retenção de informação por dias, semanas e anos depende de duas formas principais de memória de longo prazo: da memória episódica e da memória semântica. A memória episódica permite a recordação de experiências pessoais ocorridas numa data ou lugar específicos e a memória semântica possibilita a aquisição e o resgate de fatos. No entanto, um terceiro tipo de memória interfere entre o momento da percepção e o estabelecimento posterior de uma memória episódica duradoura ou de uma memória semântica, a memória operacional. Esta guarda pequenas quantidades de informação por um curto espaço de tempo, normalmente alguns segundos, enquanto as pessoas estão empenhadas em atividades cognitivas, como ler, ouvir, resolver problemas, raciocinar ou pensar.


O principal responsável pela transitoriedade rápida é uma parte do sistema de memória operacional chamada “alça fonológica”. A alça fonológica permite que guardemos temporariamente pequenas quantidades de informação lingüística. Ela seria um subsistema “escravo” que ajuda o sistema “executivo central” da memória operacional. Esse sistema controla o fluxo de informação para dentro e para fora da memória de longo prazo. A alça fonológica pode atuar independentemente da memória de longo prazo. Uma das conseqüências de lesões na alça fonológica pode tornar o indivíduo incapaz, por exemplo, de aprender vocabulário em línguas estrangeiras, pois ela é um portal para a aquisição de um vocabulário novo, pois ajuda a assimilar o som de palavras novas. Quando ela não esta funcionando de forma adequada, não conseguimos reter esses sons por tempo suficiente para ter a oportunidade de converter nossas percepções em lembranças de longo prazo. No caso de crianças pequenas que demonstram capacidade de repetir palavras sem sentido é um bom indicativo do funcionamento da alça fonológica. O número de palavras sem sentido que uma criança consegue repetir imediatamente após ouvi-las é uma excelente forma de se prever a capacidade de aquisição de vocabulário dessa criança. As que têm problemas de linguagem apresentam desempenho particularmente ruim nos testes de alça fonológica.


Os estudos de neuroimagem localizaram o compartimento de arquivo da alça fonológica na parte posterior do lobo parietal. Outra parte da alça fonológica, crucial para repetição de informação mantida no armazenamento de curto prazo, depende de porções inferiores do córtex pré-frontal esquerdo. Essa parte do cérebro fica na proximidade da região posterior do lobo parietal que contribui para a assimilação organizada de informações. Essa mesma região desempenha um papel importante na comunicação.


A conseqüência da transitoriedade é que a informação é perdida pela memória operacional, não ficando disponível para ser assimilada pela memória de longo prazo. O mecanismo utilizado pelas pessoas saudáveis para evitar a transitoriedade de curto prazo é que elas fazem um esforço coordenado para repetir a informação, o que estimula a parte esquerda inferior do córtex frontal.


Se uma experiência vai ser rapidamente esquecida ou lembrada por anos depende também do que acontece naqueles primeiros segundos após a criação de uma memória. Pensar e falar sobre experiências não somente ajuda a compreender o passado como também altera a capacidade de recordações posteriores. Quando não refletimos ou falamos sobre o que aconteceu, a tendência é esquecer mais rapidamente. (R.O. relacionando esse trecho com o pensamento de Freud em que diz que dependendo do grau de emoção envolvido na experiência vivida, a pessoa tende a esquecer a idéia e não o afeto). Portanto, pensar e falar sobre acontecimentos do passado melhora a memória daquele evento em comparação com experiências que não são repetidas.


Lembrando que a saturação de uma experiência também leva a transitoriedade.


O esquecimento algumas vezes envolve a perda literal de informação, porque as lembranças são codificadas por meio de alterações nas conexões entre os neurônios e caso não sejam reforçadas por um esforço posterior de recuperação e repetição da informação, as conexões ficam tão fracas que a memória acaba obstruída. Entretanto, as informações aparentemente perdidas podem ser recuperadas por meio de sugestões e alusões (essas duas técnicas de recuperação da informação perdida também podem criar falsas memórias).


Uma técnica para melhorar a codificação elaborada de informações e evitar o seu esquecimento é fazer perguntas sobre o que você quer lembrar, perguntas que vão forçar a elaboração, como: quais são as características distintas no rosto dessa mulher que acabo de conhecer?


Uma hipótese sobre a retenção de informações argumenta que um gene produz uma proteína para um portão neural que desempenha um papel importante na memória, conhecida como receptor NMDA. Esse receptor ajuda o coordenar o fluxo de informação de um neurônio para o outro, através do espaço entre eles conhecido como sinapse. O psicólogo canadense Donald Hebb propôs a teoria de que as memórias são criadas quando a atividade das conexões sinápticas se intensifica entre os neurônios que estão ativos ao mesmo tempo.


Logo, a transitoriedade é a mais terrível das falhas de memória, pois ela debilita insidiosamente a função da memória de nos ligar aos pensamentos e ações do passado que definem quem somos nós.


DANIEL L. SCHACTER

(resumo do capitulo I: O pecado da transitoriedade, p. 26-58)

em Os Sete Pecados da Memória: como a mente esquece e lembra.

Tradução de Sueli Anciães Gunn

Rio de Janeiro: Rocco, 2003


segunda-feira, 8 de junho de 2009

PERCEPÇÃO


O contato entre o homem e o ambiente é possível graças a receptores sensíveis à energia, especificamente sensíveis a certas formas de energia. Antes do estabelecimento do contato e do inicio de respostas adaptativas adequadas, as características da estimulação devem ser codificadas, para transmissão aos níveis superiores do sistema nervoso central. Recepção, transformação e codificação de energia constituem o primeiro estágio do processo perceptivo (p. 16).

PERCEÇÃO VISUAL

Os cones e bastonetes dos olhos são sensíveis à luz em virtude de mudanças fotoquímicas, que ocorrem quando a luz os atinge.


PERCEPÇÃO AUDITIVA

As células ciliadas do ouvido interno são sensibilizadas pela atividade vibratória na endolinfa da cóclea do ouvido.


PERCEPÇÃO TÁTIL

Os receptores da pele são sensíveis a distorções mecânicas da pele, induzidas por pressões. Há, também, receptores na pele que respondem a mudanças na temperatura.


PERCEPÇÃO GUSTATIVA E OLFACTIVA

Células localizadas nos tecidos das fossas nasais, na língua e na boca são sensíveis a alterações na composição química dos fluidos que as banham, e que absorvem gases e partículas voláteis.


EXTERORECEPTORES (Sherrington): são células do ouvido, olho e pele que recebem energia do ambiente externo.


CARACTERISTICAS DA ENERGIA DO ESTÍMULO

  • Somente amplitudes restritas de energia ambiental em suas várias formas são capazes de estimular as células receptoras, e que a extensão dessas amplitudes varia de uma espécie para outra.
  • A intensidade mínima de energia (limiar absoluto) necessária para ativar os receptores varia de acordo com as características particulares da energia.
  • Para o estímulo ser eficaz a energia deve variar no tempo ou no espaço. Após um breve tempo, um padrão de energia constante ou imutável perde sua eficiência, pois os receptores se tornam progressivamente menos sensíveis.

PROCESSO PERCEPTIVO

A energia luminosa no olho, a energia mecânica que atinge o ouvido e a pele, e todas as outras formas de energia às quais o organismo é sensível, são transformadas ou traduzidas pelo equipamento sensorial em descargas elétricas que, por sua vez, são transmitidas como impulsos ao cérebro, através dos canais nervosos. Esta transmutação e codificação da energia é o primeiro estádio do processo perceptivo.

O mecanismo final pelo qual estas mudanças fotoquímicas disparam impulsos nas células da retina ainda permanece obscuro. Isso é, os estádios finais da transformação de energia física em impulsos neurais ainda precisam ser esclarecidos.


Em qualquer sistema sensorial, um impulso ocorre com uma amplitude característica, e sua velocidade é determinada principalmente pelo diâmetro da fibra nervosa. As mudanças na intensidade, todavia, afetam a freqüência dos impulsos no sistema. Quanto maior a intensidade do estímulo, em termos físicos, maior é a freqüência dos impulsos. A intensidade do estímulo é, pois, codificada pela freqüência do impulso, um princípio comum a todos os sistemas sensoriais.


O estímulo físico, na visão pode variar em comprimento de onda, sendo que diferentes extensões de ondas resultam na percepção de diferentes cores. Na audição as vibrações moleculares incidentes sobre o ouvido podem variar em freqüência, sendo que diferentes freqüências de vibração propiciam alturas diferentes de sons.

As variações em intensidades e em outras propriedades da energia são transformadas num código, que comunica a informação do estímulo ao sistema nervoso central. Estes processos representam o primeiro estádio da percepção.


APRENDIZAGEM E PERCEPÇÃO

A correlação entre processos neurais e fenômenos perceptivos sugere que a experiência não é aprendida, mas advém de processos e interações particulares, induzidos por padrões de estimulação.


PERCEPÇÃO E ATIVIDADE NEURAL

O declínio no brilho aparente se relaciona com a diminuição na freqüência dos impulsos e a redução progressiva do brilho está relacionada com a diminuição da velocidade dos impulsos, visto que os olhos são estimulados por uma intensidade constante.


DETERMINANTES INATOS DA PERCEPÇÃO

Pelo menos em alguns aspectos, o comportamento perceptivo não depende da aprendizagem. Uma das tarefas da psicologia experimental é a exploração detalhada das condições do estímulo que disparam estas formas de comportamento padrão, sem aprendizagem prévia.


A existência de respostas discriminativas inatas é evidenciada a partir de duas fontes principais: o comportamento de espécies sub-humanas cuja exposição à estimulação pode ser controlada ou impedida até o momento das observações experimentais, e o comportamento do ser humano recém-nascido.


Padrões de estimulação funcionalmente significativos para o animal são reconhecidos e discriminados, sem aprendizagem ou exposição prévia.


PERCEPÇÃO DO ESPAÇO BIDIMENSIONAL

A energia do estímulo pode mudar tanto em função do tempo como do espaço. A forma e a textura visuais decorrem de mudanças em intensidade e comprimento de onda da luz que chega à retina, e sensações tácteis como as de macio e áspero, assim como as sensações de contorno são associadas a variações de pressão mecânica sobre a superfície da pele.


A percepção de limites e bordas é auxiliada por mecanismos sensoriais que intensificam as mudanças espaciais na estimulação. Bordas e contornos são gerados não somente por mudanças nas propriedades fundamentais da luz, como também em virtude de propriedades mais complexas, como a densidade dos elementos que compõem a configuração.


ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO NA PERCEPÇÃO DA FORMA

Não há dúvida de que a familiaridade do observador com certas formas significativas e suas expectativas, determinadas por instruções e experiências prévias, afetam consideravelmente o que ele percebe como figura e como fundo.


TEORIA EM PERCEPÇÃO

A Teoria da Gestalt é fenomenológica, realça as relações entre processos no sistema nervoso central e as experiências do observador e dá pouca importância ao papel da aprendizagem na percepção. A noção básica do Gestaltismo afirma que a percepção é relacionalmente determinada. Um segundo princípio fundamental da Teoria da Gestáltica é o do isomorfismo, que afirma haver correspondência entre os processos induzidos no sistema nervoso central e os fenômenos perceptivos.


AS CATEGORIAS DA PERCEPÇÃO

A percepção pode ser considerada a partir de três categorias de variáveis: a do ambiente físico, a das interações e processos fisiológicos e a dos eventos comportamentais. As variáveis-estímulo são as que ocorrem no passado do indivíduo (HS), assim como a estimulação atual (S). Pode-se admitir que a estimulação passada e as respostas de atenção resultam em eventos e mudanças neurais que constituem a memória ou armazenagem neural do indivíduo. Esta última pode ser denominada depósito neural central (DNC).O estímulo em ação no momento induz processos quer no sistema nervoso periférico, como, por exemplo, nos receptores e estruturas associadas, quer nas regiões centrais, inclusive o córtice cerebral. Podemos denominá-las atividades neural periférica (ANP) e atividade neural central (ANC). O depósito neural central, a atividade periférica e os eventos neurais centrais podem ser considerados como uma combinação que produz os eventos fenomênicos da percepção (F), que, por sua vez, servem como mediadores para a resposta comportamental manifesta.


A psicologia da Gestalt concentrou-se nas relações existentes entre estímulos (S), atividade neural central (ANC) e o estado de consciência (F). As teorias funcionalistas acentuaram as interações entre aprendizagem prévia (DNC), estimulação (S) e tanto fenômenos (F) como respostas (R). As interações entre estimulação (S) e atividade neural periférica (ANP) lançaram luz, recentemente, sobre a codificação de energia do estímulo, e que a história do estímulo (HS) do indivíduo, juntamente com o estímulo atual (S) se combinam para produzir qualquer fenômeno (F), como, por exemplo, a memória de cores.




R. H. DAY

em Psicologia da Percepção

Coleção Psicologia Contemporânea

Livraria José Olympio Editora – 3ª edição – RJ – 1979 – 108 p.


quarta-feira, 27 de maio de 2009

MINHAS TRADUÇÕES

Resumo:

Até recentemente, a visão dominante era que pacientes com esquizofrenia poderiam apresentar limitações em decorrência de disfunções neuropsicológicas e as observadas seriam apenas secundárias a muito dos sintomas do transtorno. Entretanto, essa visão mudou drasticamente. Esta revisão integra evidências recentes demonstrando a gravidade e o perfil das disfunções neuropsicológicas na esquizofrenia. Apresentamos a avaliação quantitativa apurada na literatura em que demonstra que a maior parte das disfunções severas são evidentes em memória episódica e processos de controle executivo, com evidências sobre um histórico de um déficit cognitivo generalizado. As disfunções neuropsicológicas representam potenciais genéticos responsáveis pelo transtorno, assim como, deficiências semelhantes, porém brandas, são evidentes em pacientes esquizofrênicos antes mesmo do aparecimento de sintomas psicóticos, bem como em pacientes esquizofrênicos com parentes não psicóticos. A neuroimagem de correspondentes cognitivos na literatura sobre funções executivas, memória episódica e memória de trabalho na esquizofrenia que documentam anormalidades nos lobos frontais e temporais médio é resumida, e modelos atuais integrando dados neuropsicológicos e de neuroimagem são discutidos.

ABRAHAM REICHENBERG e PHILIP D. HARVEY
em Disfunções Neuropsicológica da Esquizofrenia: Integração de Desempenho Baseado em Descobertas com Imagens Cerebrais.
Psychological Bulletin (2007, vol. 133, n.º 5, 833-858)
American Psychological Association

sábado, 16 de maio de 2009

CONCEITOS

Ativação (nível de vigilância) concatenada com a atenção (capacidade de focalização da atividade).

Conteúdo da consciência: refere-se as funções mentais superiores.

Vigília: refere-se a ativação do córtex a partir da formação reticular do tronco cerebral e do sistema talâmico de projeção.

AS OITO PRINCIPAIS FASES DO DESENVOLVIMENTO DO CÉREBRO

1. indicação da placa neural,

3. migração de células da região onde são geradas até os lugares onde finalmente irão se estabelecer,

4. agregação de células para formar as partes identificáveis do cérebro,

5. diferenciação dos neurônios imaturos,

6. formação de conexões com outros neurônios,

7. morte seletiva de certas células,

8. eliminação de algumas conexões formadas inicialmente e estabelecimento de outras.


Fonte: avaliação neuropsicológica

ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE A AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA

A correlação entre a maturação progressiva das condutas humanas e a maturação neuropsicológica, não deve estar baseada na simples justaposição de sistemas neurológicos, pelos seguintes motivos:
  • o que existe num certo período da evolução e as modificações cronológicas que se produzem como conseqüência;
  • o que existe, desaparece, reaparece e volta a desaparecer em seqüências mais ou menos longas, e;
  • o que evolui no sentido de progressão funcional sucessiva e que se elabora até adquirir uma certa forma mais ou menos definitiva, a partir da qual o processo se modifica por refinamentos ou modificações seqüenciais de funções ( R.O: é o que parece ocorrer no caso da esquizofrenia, por exemplo).

O EXAME NEUROPSICOLÓGICO INFANTIL (localização dinâmica da função)
Finalidade
  • visa a apreciação integrada da personalidade,
  • conclusão das funções afetivas, conativas e intelectivas que se encontram prejudicadas e correlacioná-las aos mecanismos neuro-anátomo-fisiológicos responsáveis pelas dificuldades apresentadas,
  • estabelecer de forma clara o diagnóstico diferencial (aspectos prioritariamente afetados) e quais são os sintomas decorrentes e secundários,
  • aclopamento do diagnóstico ao planejamento terapêutico ou reeducativo.

FASE IMPORTANTE DO EXAME
  • anamnese com os pais e a criança (possibilitará o confronto posterior entre os dados colhidos e a observação que se fez deles). A observação consistirá principalmente no grau de consciência que cada um tem a respeito das dificuldades.
  • outras fontes de observação: materiais como álbum de foto ou do diário do bebê podem ser úteis, bem como dos cadernos escolares e do comportamento interpessoal do paciente no ambiente familiar e extra-familiar.

ATENÇÃO E VIGÍLIA
É o passo inicial do exame e deve durar por todo o percurso do processo de diagnóstico, porque a atenção e o nível de vigília determinam a capacidade do individuo de relacionar-se tanto consigo como com o ambiente e alterações nessa função afeta os processos mentais superiores.

Fonte: Avaliação neuropsicológica

domingo, 15 de fevereiro de 2009

FICHAMENTO: UMA BREVE HISTÓRIA DA RELAÇÃO ENTRE O CÉREBRO E A MENTE


UM DOS OBJETIVOS DAS NEUROCIÊNCIAS:

  • Explicar como a cognição e a consciência humana nascem da atividade do cérebro.

DO QUE TRATARÁ O CAPITÚLO?

  • Da modificação no decorrer da história da abordagem da neurociência quanto a concepção do que são e quais são os mecanismos da consciência e da cognição.

PROBLEMA:

  • Definição conceitual de consciência e cognição.

POR QUE?

  • Confusão entre um conceito e outro, muitas vezes são usados como sinônimos.
  • O outro motivo que a autora alega para a indefinição do conceito acredito não se justificar (“a grande parte da literatura em neurociência ser em língua inglesa e alguns termos não terem traduções exata no português), isso porque a origem dos dois conceitos na língua anglo-saxônica são de origem latina, da mesma forma que no português.

O QUE DIZ OS DICIONÁRIOS SOBRE ESSES DOIS CONCEITOS?

  • Consciência/cognição no “Dicionário Aurélio”: menciona para que serve, mas não o que é. Posteriormente, como sinônimo de conhecimento. A denotação conhecimento é dada como sinônimo de cognição, que também é definida como aquisição de conhecimento. Desta forma, na língua portuguesa, considerando as definições apresentadas no dicionário citado, não é apresentado uma diferenciação satisfatória entre o que é consciência e o que é cognição.
  • Consciência/cognição no “American Heritage Dictionary”: consciência (consciousness) – estar consciente e componente do estado de vigília perceptível por uma pessoa a qualquer instante (consciente-psicanálise); consciência (conscious) – ter ciência do seu ambiente e da sua própria existência, sensações, e pensamentos; ser capaz de pensamento, volição, percepção; conhecer ou sentir subjetivamente; ter intencionalidade e deliberação; estar atento ou sensível interiormente.

O QUE É A NEUROCIÊNCIA?

  • Conjuntos de disciplinas que estudam, pelos mais variados métodos, o sistema nervoso e a relação entre as funções cerebrais e mentais (a dicotomia entre cérebro e mente presente no conceito – grifos meus).

OS RAMOS DAS NEUROCIÊNCIAS:

  • Neuroanatomia, neurobiologia, neuroendocrinologia, neurofarmacologia, neurofisiologia, neurogenética, neurologia, neuropatologia, neuropsicologia, neuropsiquiatria, neuroquímica, neurorradiologia.

QUANDO SE DEU O FORTALECIMENTO DA CRENÇA DE QUE O SISTEMA NERVOSO DESEMPENHA ALGUM PAPEL NA CONCIÊNCIA E NA COGNIÇÃO?

  • Século III a.C. quando Herophilus (335-280 a.C.) e Erasistratus (310-250 a.C.), no Egito, inauguraram os estudos anatômicos do cérebro, dissecando cadáveres, e forneceram as primeiras descrições mais detalhadas do cérebro humano, especialmente dos ventrículos cerebrais. Em 130-200 d.C. o médico romano Galeno via os ventrículos cerebrais em detalhe, e acreditava que neles eram armazenados os espíritos animais, no entanto ele associava a imaginação, o intelecto e a memória com a matéria cerebral. Galeno também argumentava que as funções mentais podiam ser afetadas separadamente por diferentes lesões e doenças, mas não chegou a propor um esquema de sua localização no encéfalo.

A LOCALIZAÇÃO DAS FUNÇÕES MENTAIS NO CEREBRO:

  • (viés permeado pelas crenças católicas) Século IV d.C., pela doutrina ventricular que defendia a localização da funções mentais em três câmaras no centro no cérebro. Desta maneira as funções superiores foram atribuídas aos ventrículos cerebrais. Nemesius (c.390) localizava a percepção nos ventrículos anteriores, mais próximos dos órgãos dos sentidos da face e das mãos; a cognição no ventrículo mediano; e a memória no ventrículo posterior.
  • Vesalius (1514-1564) rejeitava a localização das faculdades mentais nos ventrículos, para ele a função dos ventrículos era de possibilitar aos vasos sanguíneos levar nutrientes às partes mais profundas do cérebro. Quanto à localização das funções mentais superiores ele diante das limitações dos estudos anatômicos não pôde formar uma opinião acerca de como o cérebro regula a imaginação, o raciocínio e a memória.
  • Leonardo da Vinci (1472-1519) é o precursor de uma concepção mais realista da estrutura dos ventrículos. Ele injetou cera líquida nos ventrículos de um cérebro bovino e removeu os tecidos ao redor após a cera endurecer, revelando uma estrutura ventricular muito diferente das representações feitas na época. Entretanto Da Vinci não rejeitou a teoria ventricular apenas adaptou-a a desenhos anatomicamente corretos.
  • René Descartes (1596-1650) acreditava que os fluidos, ou espíritos animais, circulavam pelo cérebro, através dos tubos nervosos (os nervos), os fluidos levariam, por exemplo, a imagem visual até o local do cérebro em que elas entrariam em contato com a res cogitans, imaterial. Esse local era a glândula pineal.
    • COMO SE DEU O ROMPIMENTO DOS MAIS DE 1000 ANOS DA DOUTRINA VENTRICULAR?

(a autora considera que só no século XIX é que haverá o nascimento da neurociência com a associação da cognição ao córtex cerebral, por meio de Franz Gall)

  • Thomas Willis (1621-1675), escreveu um dos livros mais importante na história da neurociência, o Cerebri anatomie (1664), em que sugeria que os ventrículos eram apenas um resultado acidental das dobras do cérebro, mas ainda assim atribuía-lhes a função de formação e circulação dos espíritos animais. As funções mentais da memória e a volição seriam controladas agora pelos giros cerebrais, não pelos ventrículos. A percepção situada no corpo estriado, na porção basal e frontal do cérebro; a imaginação no corpus callososum (conjunto de fibras entre o estriado e o córtex); e a memória no córtex.
  • No início do século XIX por meio de Pierre Gratiolet (1814-1865) e François Leuret (1797-1851) – discípulo de Franz Gall é que as circunvoluções cerebrais foram reconhecidas como uma constante anatômica em cada espécie animal. Daí foi possível compreender e propor que diferentes funções mentais alojam-se em diferentes porções do córtex.
  • Para Gall o córtex cerebral é na verdade uma série de regiões com diferentes funções. Inicialmente postulou 27 faculdades afetivas e intelectuais e mais tarde foram ampliadas para 35 por Spurzheim.
  • Postulados de Gall sobre o córtex cerebral:
      • funções localizadas em regiões específicas
      • o desenvolvimento das faculdades afetivas e intelectivas é uma das funções da sua atividade e o nível de atividade de cada uma determina o tamanho do órgão cortical respectivo.
      • o desenvolvimento de cada região cortical causa deformações no crânio, por meio das quais podem ser avaliadas.
  • As idéias de Gall ofereciam uma hipótese de trabalho muito clara e possível de ser testada (a alegação de que o córtex apresenta regiões com funções especificas seria possível provocar deficiências no comportamento animal através da remoção de porções bem circunscritas do córtex cerebral). Dessa tentativa de confirmação da hipótese oriunda das idéias de Gall nascia um dos métodos da neurociência experimental.
  • A verdadeira revolução ocorreu com Paul Broca (1832-1880) quando declarou que a linguagem tinha uma localização precisa no córtex cerebral humano. A descoberta de Broca estabeleceu o espírito localizacionista de funções psicológicas no córtex cerebral.
  • Com as evidências fornecidas por Hermann Munk 1839-1912 (defendia a localização das funções sensoriais e motoras e forneceu evidências mais definitivas da localização da visão no córtex occipital) e David Ferrer (que ao provocar por meio de cirurgias bem delimitadas surdez e hemiplegia apoiava a localização de funções no córtex), a questão da localização das funções sensoriais foi rapidamente assentada no final do século XIX e o debate nesse campo passou a centrar-se na delimitação precisa das áreas sensoriais e se estas representariam sensações básicas ou “engramas” específicos, como cenas visuais.
  • Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) mostrou por meio de suas ilustrações histológicas que o cérebro não era uma rede contínua, mas sim um conjunto de unidades celulares discretas.
  • Cajal usando o método de Golgi (ardente defensor da Teoria Reticular que criou uma forma de colorir as células nervosas com dicromato de prata, cromato de potássio e nitrato de prata) fez observações que contestava a Teoria Reticular (o sistema nervoso seria um emaranhado único de massa uniforme e eqüipotente). Cajal via as terminações neuronais organizadas e obedecendo a arquiteturas padronizadas. Em vez de continuidade entre células Cajal via espaços entre elas. O trabalho de Cajal levava à proposição de uma nova teoria em detrimento da Teoria Reticular: a Teoria Neuronal (vê o sistema nervoso como um conjunto de células individuais, especializadas segundo a região do cérebro, e organizadas ordenadamente em um sistema complexo).
  • Se havia áreas anatomicamente diferentes, elas possivelmente teriam funções diferentes. Assim um dos mapas citoarquitetônicos propostos foi o de Korbinian Brodmann (1868-1918), que identificava 52 áreas diferentes. Hoje considera que várias das áreas identificadas por Brodmann correspondem a áreas funcionais.
  • Gustav Fritsch (1838-1927) e Eduardo Hitzig (1838-1907) demonstraram a localização funcional dos movimentos.
  • Harvey Cushing (1869-1939) observou que a estimulação da zona parietal do cérebro não provoca movimento, mas sim sensações táteis.
  • Wilder Penfield (1891-1976) produzia sensações de cores, luzes, sons e movimentos percebidos como reais pelo paciente, dependendo da porção do córtex estimulada. A estimulação do córtex temporal parecia recriar experiências passadas de tal maneira que o paciente as aceitava como autênticas. Penfield elaborou um novo esquema de localização das funções mentais no córtex.

AS SINAPSES E OS REFLEXOS

  • Sinapses: pequenos espaços entre as células nervosas, ou seja, são espaços intercelulares.
  • Arco reflexo: circuito formado por um neurônio sensorial que inerva um local da pele e um neurônio motor na medula que comanda músculos naquela região do corpo. Esse arco, às vezes contando com a ajuda de mais de um neurônio intermediário na medula, é suficiente para provocar os movimentos reflexos.

A CONSCIÊNCIA

  • Com o estabelecimento da localização funcional no córtex cerebral vinha o problema da integração – pois, apesar de seus componentes sensoriais e motores, a consciência é um fluxo contínuo e único.
  • Horace Magoun (1907-1991) e Giuseppe Moruzzi (1910-1986) estimularam por engano a formação reticular do mesencéfalo de um gato anestesiado. O eletroencefalograma, que indicava um estado de sono profundo, imediatamente mudou para um traçado semelhante ao do estado de vigília. Em outros experimentos observaram que a estimulação dessa região do cérebro causava não só uma ativação do eletroencefalograma, como também provocava um estado de alerta – ou de consciência – em animais anestesiados que estavam adormecidos ou sonolentos. A destruição da formação reticular tinha o efeito oposto: causava a inconsciência e o coma.
  • A partir da descoberta de Moruzzi e Magoun a manutenção do estado consciente dependia de mecanismos operantes no centro do cérebro, e não só de um córtex saudável.
  • Conexões neuronais: o mais provável mecanismo cerebral da memória e do aprendizado.

TÉCNICAS DE VISUALIZAÇÃO DO FUNCIONAMENTO CEREBRAL

  • Essa técnicas baseiam-se na relação entre a atividade mental e o metabolismo cerebral, ou seja, no aumento do consumo de oxigênio e de glicose pelos neurônios requisitados a cada momento.
  • O imageamento funcional tem mostrado que várias outras regiões do córtex são ativadas, além das áreas esperadas, o que indica que o funcionamento do cérebro envolve a coordenação de várias áreas trabalhando em conjunto.

(R.O.) INTERESSANTE PARA A APLICAÇÃO NA PSICOLOGIA CLÍNICA, PRINCIPALMENTE NO TRATAMENTO DOS DISTÚRBIOS DE ANSIEDADE:

  • A consciência do sentimento alerta o organismo para a situação que provocou a emoção, além de puxar a atenção sobre si, incentivando o planejamento de formas de reação adaptativas que sejam novas e talhadas sob medida para a ocasião.

OBSERVAÇÕES FINAIS SOBRE O ARTIGO:

A autora faz um panorama claro e conciso da evolução histórica da neurociência. Entretanto, parece ainda pré-maturo acreditar que as idéias concebidas sobre a consciência por Damásio em seu livro “O mistério da consciência” (1999) tenham resolvido o problema do funcionamento biológico da consciência.


HERCULANO-HOUZEL, Suzana. Uma breve história da relação entre o cérebro e a mente. In ___ A Neurociência da mente e do comportamento (Coordenação de Roberto Lent). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 2008. p. 2-17

LIVROS DA ÁREA DE NEUROCIÊNCIA LIDOS EM 2009/2010

* Psicologia da Percepção - R. H. DAY
* Os Sete Pecados da Memória - como a mente esquece e lembra - DANIEL L. SCHACTER
* Mentes Inquietas - TDAH: desatenção, hiperatividade e impulsividade - ANA BEATRIZ BARBOSA SILVA

LIVROS DE LITERATURA LIDOS EM 2009/2010

* Memórias do Subsolo - FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

* Oráculos de Maio - ADÉLIA PRADO

* No Caminho de Swann - MARCEL PROUST

* Fantasma Sai de Cena - PHILIP ROTH

* Indignação - PHILIP ROTH

* Caim - SARAMAGO

* Recordações da Casa dos Mortos - FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

* O Seminarista - RUBEM FONSECA

CONTADOR